Governo quer repatriar cientistas?

Segundo a Folha.com, durante visita ao INPE, o economista, ministro de ciência e tecnologia Aloísio Mercadante, afirmou que o governo quer repatriar cientistas que trabalham no exterior. Deu o exemplo dos 3000 cientistas que atuam como professores nas universidades dos Estados Unidos.

Aloísio está certo em uma coisa, o número de cientistas fora é alto. Só que ele está ainda em campanha eleitoral e demonstra total desconhecimento da realidade. Um político economista, que nada tem de cientista ou de ligação com a área tecnológica, ocupando o maior cargo do país na área. Essa é uma das cruéis realidades desse país da qual tenho pouca esperança de mudança.

Sou formado em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Santa Catarina, referência no mundo no assunto eletrônica de potência (www.inep.ufsc.br). São muitos conhecidos da minha época, entre mestres e doutores, que se encontram fora do Brasil. Distribuídos entre vários países. É possível dizer que a metade acaba saindo e poucos voltam por questões familiares, não por melhores oportunidades aqui. Além disso são muitos os colegas de turma que, durante a nossa “marola” e a tsunami internacional, fizeram o caminho Brasil exterior com passagem só de ida, contradizendo totalmente a afirmação do ministro a seguir.

“Tem muitos países desenvolvidos em ciência e tecnologia que estão em crise econômica severa e há um grande interesse no Brasil hoje porque o país está se posicionando muito bem em termos de perspectiva de futuro.”

E para quem pensa que não, existe uma explicação lógica para esta contradição que o ministro desconhece. Ai vão.

  1. No Brasil poucas empresas investem em tecnologia. Quase nenhuma. Se de fato elas existissem e tivessem seus incentivos os pesquisadores não dariam prioridade para sair do país. Leis de incentivo brasileiras como a “lei da informática” por vezes submetem os profissionais da indústria à situações ridículas (e que não duram muito), resultando em benefício apenas para os empregadores. A última opção é trabalhar como professor nas boas universidades federais e pouco podem fazer para melhorar a conexão com a indústria.
  2. As empresas estrangeiras líderes de mercado em suas áreas, criadoras das tecnologias que aqui copiamos, não param de investir na área durante uma crise. Olham para a área como uma possível saída, aumentando o investimento e contratando mais durante essas fases. Elas e o governo sabem que tecnologia é assunto sério e de retorno de longo prazo. Sabem que podem cortar produção, reduzir fábrica, transferir instalações para a China, mas deixar de investir no futuro da empresa e do país não é possível. Este perfil muito se diferencia do brasileiro e por isso muitos bons profissionais que aqui servem de “pau para toda obra”, se deslocam para lá nestas fases de crise. Por isso Sarkozy deseja dificultar entrada de trabalhadores comuns, mas facilitar para os especializados.
  3. No papel de “pau para toda obra” o qual se submetem aqui, a criatividade anda a flor da pele para resolver problemas e situações das mais diversas. Fato reconhecido lá fora quando se fala de pesquisador brasileiro. São referência em criatividade, diferente dos estrangeiros que tendem a executar tarefas de forma ordenada sem muito inovar. Normalmente lá fora, os profissionais daqui se destacam perante os locais sem que isso seja visto como uma ameaça. Se sentem valorizados.
  4. Quando aparecem as oportunidades lá fora, a diferença de qualidade de vida pesa e muito. Aqui se desconta menos impostos mas o retorno é zero. A realidade é de péssima prestação de serviços como educação para os filhos, saúde e transporte. Lá o imposto apesar de maior se percebe o retorno dele, o que  permite uma economia em serviços básicos.

Então as perguntas ao ministro são:

Como o governo irá repatriar os cientistas?

Que condições melhores se pretende oferecer aqui para que os expatriados retornem e os que ainda não foram decidam ficar?

Podemos esperar uma revolução de 50 anos em 5 na área tecnológica?

Reportagem completa da Folha.com a seguir.

Governo brasileiro quer repatriar cientistas que atuam no exterior

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FÁBIO AMATO
DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, disse nesta segunda-feira que pretende desenvolver mecanismos para que o país mantenha diálogo permanente e mesmo repatrie cientistas brasileiros que atuam em instituições no exterior.

“Temos que criar uma rede dessa inteligência brasileira no exterior, uma rede em que eles [cientistas] se relacionem com o Brasil para participar de projetos no país e abrir uma porta para aqueles que quiserem voltar”, disse o ministro durante visita ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos (SP).

Wilson Dias/ABr
Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante afirmou que governo pretende atrair técnicos e cientistas ao Brasil
Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante afirmou que governo pretende atrair técnicos e cientistas ao Brasil

De acordo com Mercadante, apenas em universidades dos EUA atuam cerca de 3.000 professores brasileiros.

O ministro também afirmou que o governo pretende aproveitar a crise econômica que afeta alguns países desenvolvidos para atrair ao Brasil técnicos e cientistas que enxerguem aqui oportunidade de crescimento.

“Tem muitos países desenvolvidos em ciência e tecnologia que estão em crise econômica severa e há um grande interesse no Brasil hoje porque o país está se posicionando muito bem em termos de perspectiva de futuro.”

Ele disse que será montado um comitê de busca desses profissionais e que serão estudadas políticas de incentivo para que venham atuar no Brasil. Segundo ele, a prioridade vai ser a repatriação de cientistas brasileiros.

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Comments
One Response to “Governo quer repatriar cientistas?”
  1. Concordo com o comentário acima. De fato, não temos cultura de pesquisa e ainda poucos pesquisadores/cientistas de carreira, visto que a grande maioria dos pesquisadores nas nossas Universidades na verdade tem o perfil de professores. E diga-se de passagem, não é equivalente a posição de “professor” que existe nos EUA e Europa. Para chegar a “professor” em tais países o indivíduo já deve ter uma extensa experiência em pesquisa. No Brasil, a maioria inicia como professor e eventualmente é forçado a fazer pesquisa sem a minima noção de como conduzir uma pesquisa científica.
    Outro aspecto é a total falta de perspectiva de carreira, como comentado acima e some-se a isso os anos de mão-de-obra barata por um aprendizado falho e obsoleto. Esta critica esta refletida na posição das nossa Universidades no ranking mundial. USP posição 253.
    http://hadriano66.blogspot.com/2011/03/ue-cade-universidade-federal-do-parana.html

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