Aliados e mercenários

Excelente artigo do presidente do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) Roberto Jefferson sobre a briga de cargos entre PT e PMDB.

Original: Brasil Econômico.

 

Tornou-se um senso comum afirmar que o sistema de governo brasileiro é a república presidencialista de coalizão – uma jabuticaba da ciência política, algo que só existiria nesses trópicos que Claude Levi-Strauss, mal observando, disse serem tristes. Na aparência, pode ser. Numa análise mais acurada, não.

Um presidencialismo de coalizão tivemos, talvez, no governo Itamar e em graus variáveis com Fernando Henrique Cardoso. Já sob esse último as limitações da fórmula mágica se revelaram crescentes.

Foi por isso que, entre os dois mandarinatos de nosso esclarecido príncipe dos sociólogos, propus ao PTB que deixasse de condicionar o apoio político à participação no governo sob a forma de cargos. Essa permuta aviltava, na minha opinião, as duas partes.

Na transição de FHC I para FHC II propus que o PTB apoiasse o governo sem que isso incluísse postos em ministérios ou estatais. Fernando Henrique entendeu e aceitou a proposta.

A ideia era deixar claro que nosso partido apoiava seu projeto de país e seu programa de governo. Dessa forma obteríamos uma influência e um prestígio que seriam reconhecidos por todos os segmentos da sociedade, inclusive por aqueles que nos apoiavam financeiramente, mas, sobretudo, por nossos eleitores. Cresceríamos ou definharíamos eleitoralmente por nossos acertos ou por nossos erros.

O PT, cujo DNA ainda guarda traços inequívocos de suas vertentes bolchevique e de sindicalismo atrelado partidariamente, reais apesar de contraditórias entre si sob vários aspectos, nunca acreditou em coalizões para valer.

Para os petistas, como escreveram alguns revolucionários russos, os aliados são “companheiros de viagem” que devem ser jogados do trem antes que tramem a chegada à locomotiva. A eles se pode oferecer um ou outro lugar privilegiado, mas jamais participação acionária na ferrovia ou sequer o controle inteiro de vagões, como o carro leito ou o que transporta valores.

É cada vez mais evidente pelo noticiário sobre as disputas entre PT e seus aliados, em particular o PMDB, que o PT não lidera uma coalizão, não divide o poder, a influência ou o prestígio de seu exercício.

E o eleitor percebe cada vez melhor que, quando não se divide o poder se oferecem compensações. É o que se fazia – e eventualmente se faz – com outro tipo de apoiadores. Com os mercenários, por exemplo. Desses se obtém o apoio mediante pagamentos mensais ou mensalões, em troca de participação no botim ou da permissão para saquear o território conquistado, mas nunca no poder.

Essa análise poderia ser feita do ponto de vista moral, da ética da convicção, como dizia o sociólogo alemão Max Weber – e seria importante fazê-lo – ou da perspectiva da ética na ciência política, com o que Weber chamava de ética da responsabilidade. Seja como for, no longo prazo, o resultado é o mesmo.

Na impossibilidade de se exercer o governo sem a necessidade de alianças, o melhor para governantes (e governados) é o estabelecimento de coalizões que compartilhem o poder, a influência e o prestígio.

A alternativa é o recrutamento de mercenários, o que só degrada a todos, como demonstra o descrédito atual da política e dos partidos.

 

 

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