O lado B da farra do boi em Santa Catarina

Época de Páscoa e lá vem a onda contra as farras do boi no litoral catarinense pregadas por pessoas, defensoras de animais, mas com a característica peculiar de não fazer a defesa completa. Muitos só reclamam mesmo da farra do boi. Aqui vou chamá-los de “Maria vai com as outras“. Meu principal objetivo desse post não será a defesa da prática que é de fato absurda – também sou um defensor dos animais -, mas esclarecer alguns pontos que andam disfarçados por trás desta onda pregadas por quem na maioria das vezes não viveu e não conhece a história completa ao redor deste assunto.

O primeiro ponto a ser levantado é a questão da legalidade. A prática tem origem cultural sim, assim como a origem cultural espanhola das touradas e a origem cultural estadunidense dos rodeios. Fechar os olhos para este primeiro ponto é ignorância maior que a do ignorante praticante da farra ilegal. Em todos os casos as práticas devem ser questionadas com o mesmo peso e com o mesmo objetivo. Mas não é o que vejo. A começar, a ilegalidade da farra gerou o que hoje é o “tráfico de drogas” dos bois. Normalmente pessoas na menor altura da pirâmide social e com sentimentos de exclusão provenientes da discriminação ou desigualdade dos países pobre, onde faltam escola e todo o resto comentado neste blog, são usadas para executar as farras hoje ilegais nas formas mais absurdas possíveis. A ilegalidade termina desta forma, assim como a formação de milícias em favelas motivadas pela proibição de drogas. Mas a grande dúvida é do porque da proibição existir para a farra do boi mas não para os rodeios. Essa é a única questão ainda não respondida que quando feita aos “maria vai com as outras” temos apenas a resposta pronta: não dá para proibir os rodeios, eles não são tão cruéis quanto as farras. Metade das minhas respostas estão nos dois vídeos do youtube no final do post.

A outra metade da resposta vem com a real comparação não feita por “maria vai com as outras”, que NÃO são questionadores natos. Que comparação é possível fazer entre as farras ilegais e os rodeios legais? Vamos comparar a venda de bebidas em supermercados (legais) com as vendas de drogas (ilegais)? Não é possível. Quem dos “marias” conheceu a verdadeira farra do boi? Eu conheci quando ela era praticada no sul da ilha de Florianópolis, onde passei minha infância, nos arredores do famoso bar do Arante (se não conhece ainda é ponto de parada obrigatório na próxima visita a Florianópolis, mais informação aqui). Lá o boi era solto nas ruas e os prejuízos eram apenas materiais. Nenhum problema para a população. Os farristas saiam machucados e o boi não era morto e nem saia machucado. Em certo ano, em meio a polêmica, houve uma legalização/regulamentação da farra. Ela ocorria dentro de cercados fechados onde o farrista não poderia encostar no animal e este, antes de se cansar era trocado. Quem se machucava mesmo era o farrista, muitas vezes bêbado, este sim motivo de “farra”. Esta legalização, ao estilo do que chamo de rodeio leve, durou um ano e os guias dos “marias”, normalmente pessoas provenientes de outras culturas e cheias de opiniões floridas, não permitiram que permanecesse. Era uma grande evolução perante a farra original feita nas ruas, mas ainda inaceitável. Porque? É bem mais fácil proibir e fazer “auê” com as ilegais que são verdadeiramente absurdas. Hoje nada se vê de farras naquela região (que bom!), mas isso não impediu que o bar do Arante continue sendo destaque no guia quatro rodas e entre outros especialistas em turismo. Para clarear ainda mais a questão da legalidade, no ano em que o STJ oficializou a proibição da farra do boi, impossibilitando uma regulamentação, este mesmo orgão criou a profissão “peão de boiadeiro”. 

Outro ponto na comparação que eu me dou o direito de chamar de covardia é o tamanho da cultura. A tourada é cultura antiga da Espanha e do México inteiro e portanto imagino que o volume de pessoas ao redor desta cultura não seja pequeno. Mas não inclui o Brasil. Os rodeios são praticados por cerca de trinta milhões de pessoas em todos os principais países da America  (estimativa segundo o wikipedia). Enquanto a “farra do boi” é limitada ao litoral de um estado com cerca de 6 milhões de habitantes (4% da população brasileira) e àqueles que são de descendência açoriana, que estimo 1/20 da população do estado (300 mil pessoas). O wikipedia estima que é tradição de apenas 30 comunidades (antes da proibição). Uma diferença de 100 vezes, porém somente na época de páscoa, ou seja, cerca de 3 semanas em 1 ano, enquanto o rodeio ocorre o ano todo. Chamo de covardia porque fica claro que desafiar os rodeios é, além de realmente efetivo, coisa de “macho” e não de “maria vai com as outras”!

Vamos defender realmente os animais? Abaixo aos rodeios que são verdadeiras farras de bois, cavalos, bezerros! Se tem dúvidas veja os vídeos a seguir.

Como diz a propaganda do canal Futura: Questione, descubra, mude.

A seguir um email enviado pelo meu pai ao jornal Diário Catarinense de origem gaúcha em resposta a uma dessas reportagens típicas sobre farra do boi feita em 2005.

Acordo neste sábado ameno e agradável de pré-outono (5/3/2005), pego o jornal e me deparo com mais uma reportagem sobre a farra do boi. Incomodado com tão constantes demonstrações de falta de sensibilidade de nossa sociedade, me motivo a lhe escrever.

Ponto de destaque na reportagem é a dupla citação de um nome ligado a uma organização internacional de cujas palavras (imagino transcritas) se absorvem explícito autoritarismo militaresco de conseqüências facilmente previsíveis.

Lembremos do início de tudo isto, não da farra, cuja origem histórica já deveria estar muito bem estudada pelos acadêmicos das Universidades Catarinenses, mas da polêmica em torno do fato, iniciada pelo ex-deputado federal Fernando Gabeira. Acho que seria desnecessário citar os fatos amplamente noticiados à época, mas quero relembrar alguns que somente os mais observadores e moradores participativos, sensibilizados, teriam condições de lembrar. Após aqueles episódios, o assunto até então restrito aos vilarejos à beira mar do litoral Catarinense, locais tão bem escolhidos como atracadouros seguros pelos respeitáveis e destemidos imigrantes açorianos, virou moda na boca de todo mundo e como conseqüência, até uma década depois, disseminou a prática da farra em quantidade assustadora, em todos os cantos da ilha e do continente, envolvendo pessoas que visivelmente nenhuma intimidade tinham com aquela tradição. Resultado este, que ao lado de algumas queimaduras cutâneas e morais em moradores de Governador Celso Ramos, é também altamente danoso e recriminável. Entendamos que tratou-se de um erro, já redimido pelo silêncio posterior do deputado, assim espero. Mas deveria ter servido de lição.

Lembro-me de um povo no interior da África que eventualmente se alimenta de cérebro de macacos vivos. Certamente muitos cidadãos esclarecidos pelo mundo afora rejeitam este costume. O que nos colocou em contato com ele foi a verdadeira globalização, não econômica nem política, mas sim fruto da superpopulação mundial e do desenvolvimento científico. Então os vemos como bárbaros, porque não usam costumes e tradições que procuramos, talvez por herança genética, padronizar. Considerando nossa sociedade mais evoluída, queremos impor nossos costumes a eles. Porém temos uma única certeza, cedo ou tarde nossa “civilização” vai terminar por extinguir os macacos deles. A coisa mais provável de se esperar é que, caso pressionados, reagiriam de forma a preservar suas tradições e sua cultura, o que traz consigo o perigo dos famigerados conflitos mundiais causados pela intolerância entre povos. E a nós, alienígenas inconformados, deveria caber o papel de respeitá-los. Nem mesmo tomarão eles conhecimento de que algum tribunal internacional venha a proibir sua tradição e tão pouco é admissível que alguém tenha este direito.

Por falar em direito, lembro do noticiário de ontem sobre o assassinato do segurança pelo juiz de Fortaleza, e que a “justiça” é composta por pessoas comuns, muito distantes da perfeição e particularmente conhecedores dos “furos” da legislação.

Para mim a pergunta do clickRBS, feita ao lado da sua reportagem, já trás em si mesma a resposta, basta que nos desprendamos do preconceito e da soberba, que contaminaram os juízes do STJ no caso do boi açoriano.

Voltando ao ódio e desejo de violência captados nas palavras dos defensores dos animais, lembro também dos últimos noticiários à respeito da novelista Glória Peres, ameaçada de forma animalesca pelos defensores dos animais, por pretender mostrar na próxima novela das oito o ambiente dos rodeios.

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Comments
4 Responses to “O lado B da farra do boi em Santa Catarina”
  1. Mariano disse:

    É isso aí Zé, concordo que deve ter uma punição para os farristas e também a proibição dos rodeios. Acho isso um absurdo.
    Não é atoa que eu sempre torço pelo animal nessas “disputas”.
    Tenho nojo dessas touradas e do mal trato aos animais.
    Bando de FDP sem coração. Tomara que façam o mesmo com você um dia!

    • Eh bem por ai Mariano, eu acho legal quando o touro ganha e o abobado vai pra casa torto. Mas só vejo covardes brigando contra a farra do boi porque quem faz é uma minoria (e que minoria). Esses tem medo dos caciques dos rodeios e medo de peitar 30 milhões de irracionais. Falsos moralistas!
      Só os machos falam dos rodeios! Meu icone ta ali na coluna da direita do blog. “Odeio Rodeio”!

  2. Fernando disse:

    Na farra do boi o boi é torturado e linchado até a morte. Se nao acredita vá até Santa Catarina e veja com seus próprios olhos. É muita maldade aquilo.

    • Gostei do teu empenho em defesa dos animais, Fernando. Agora falta o “passo de efeito”, a briga contra os rodeios!!! Rodeios são 500 vezes maior que farra do boi. Se tu parar na farra vou entender que tua razão é outra!!

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